30/10/09

Estrelas no olhar




Sou mais do sentir do que do falar,
por isso dos meus olhos saem estrelas
na vez de um simples olhar.


Perante a beleza do que consigo enxergar,
faço cá dentro uma fantasia sublime
e chamo as estrelas para a abrilhantar.




Maria Escritos

29/10/09

Ciclos de vida (PESSOAS SENSIVEIS NÃO DEVEM LER ESTE TEXTO)


A vida é um ciclo composto de vários outros ciclos. O da infância, o da adolescência, o da juventude … o da alegria, o da tristeza, o da felicidade, o da dormência…enfim, vários.
Tudo tem um começo e tudo tem um fim.
Quando eu era criança e os meus pais estavam ainda casados, de entre os quatro filhos, eu fui a eleita para ser o saco de porrada da minha mãe. Por tudo e por nada presenteava-me com os “cinco mandamentos” bem abolachados na cara, isto sem contar as vezes em que cortava um pedaço de mangueira e me desfazia numa sova. Mais ingrato que tudo é que depois se vangloriava do seu feito e obrigava-me a mostrar às vizinhas as marcas deixadas no meu franzino corpo. Esse ciclo passou e seguiu-se outro quando o meu pai na véspera do meu 13º aniversário saiu de manhã para ir trabalhar e nunca mais voltou…a casa!!!
Foram anos de tormentos forçados e como desejei mais do que nunca ser aquela menina que enfrentava apenas as vergastadas da mangueira. Enfrentei bebedeiras, aturei pancada e injúrias daquela que me carregou no ventre, e a quem chamo mãe. Foi um ciclo de séculos a escutar a sua raiva vociferada contra mim, apenas e simplesmente porque me pareço com o meu pai. Tive de cuidar dos meus três irmãos, quando eu ainda precisava de quem cuidasse de mim. Muitas lágrimas verti no escuro do meu quarto desejando ter uma mãe que se risse comigo em vez de me bater. Muitas foram as lágrimas vertidas por mais um dia sem ouvir uma palavra amiga.
Fui forçada a ir trabalhar aos 13 anos para haver dinheiro em casa no fim do mês. Outro ciclo da minha vida. A desunião da família trouxe a discórdia e dos maus exemplos da mãe vieram as más escolhas dos filhos. Aos 16 anos parecia um bicho-do-mato. Nessa altura tinha medo de tudo e medo de nada. Queria fugir de tudo aquilo que desprezo mas temia que a sombra da minha mãe me perseguisse para me atormentar. Vivia apavorada vendo a sua sombra cambaleando na minha direcção pronta para me agredir. E aterrorizava-me só de imaginar o seu olhar colérico.
Um dia tive de escolher: ou me matava ou fugia de casa. Hesitei pela minha irmã mais nova, mas depois tranquilizei-me pois ela nunca foi atingida com nada. Era a protegida, a maninha caçula. Escapuli-me pelo terraço, no maior silêncio apenas com a roupa do corpo e o meu diário. Ainda não tinha dado as 8.30 e já eu atravessava a ponte sobre o rio Douro indecisa entre atirar-me dali mesmo ou continuar. Para onde ir? Fui ter com o meu pai. No mesmo dia arranjei trabalho e um quarto onde dormir. E durante alguns meses acreditei que fui feliz. Até ao dia em que os meus irmãos às escondidas me fizeram saber que a minha mãe chorava por mim. Amoleci o coração e lá voltei a casa. Começou o pesadelo outra vez. O estado normal da minha mãe era a embriaguez e o prato do dia eram os insultos e a porrada. Mudámos de casa tantas vezes que já nem me recordo de todas as paredes onde deixei gravadas as minhas dores.
Decidi, num outro ciclo, voltar aos estudos em regime pós laboral. E até isso se tornou um pesadelo para mim.
- “Gastas o dinheiro mal gasto nos estudos. Podes ganhar a vida a lavar escadas e para isso não precisas de estudos. Abre os olhos sua besta!” – dizia a minha mãe.
Tive um esgotamento como é óbvio. Em pleno ano lectivo de um curso intensivo nocturno fui-me abaixo. Deixei-me abater com o peso das palavras marteladas anos a fio. Consegui recuperar a saúde com fármacos e o ano lectivo á base de muito estudar.
Mudei-me para um quarto sozinha pois o salário não me permitia ter mais. Mas para mim chegava desde que eu tivesse paz. Muitas vezes perguntei porque me afligia e ainda aflijo com o sofrimento da minha mãe que tanto me maltratou. Muitas vezes perguntei porque nos deixou o nosso pai. Tantas e outras vezes quis ser amada em vez de espancada pelos erros de criança. Tantas vezes quis não ter nascido, não para esta vida. E no entanto, quem me fez tanto mal hoje depende de mim e eu amo-a apesar de tudo.
Estou num ciclo em que tenho sede de um afago carinhoso, e vontade de ser amada todos os dias, antes que o ciclo que comanda a vida se feche e me tire o direito de ser quem sou. E é nos mais pequenos gestos que eu busco as luzes do amor, porque de grandioso já tenho o ciclo da vida
Talvez eu não saiba amar, nem saiba o que é o amor. E se assim for, tenho de procurar saber porque me dói tanto no peito quando aqueles que me são mais queridos e chegados se esquecem de mim.

Hoje, e só por hoje, vou abraçar o vazio e mudar-me para a solidão...Procura-me amanhã ao luar por entre o gorgolejar da cachoeira... Mas por hoje deixa-me só!


Maria Escritos

Pegadas nas calçadas




Nas pedras da calçada eram visíveis as marcas das pegadas impressas sob os calhaus. À medida que as vislumbrava apercebia-me do passo incerto levado ao acaso por entre as massas da multidão. Assemelhavam-se à incerteza traçada em linhas de hesitação. Eram riscos de carvão riscados por entre as marcas de giz onde as crianças brincaram noutros dias, talvez alegres. Sombras dum andar arrastado com o calçado gasto e roto. Pegadas esbatidas, indeléveis e resistentes á chuva que cai de mansinho para não atrapalhar esse passar. Uma após outra, as pegadas surgiam arranjadas e compassadas como o ar de quem respira e dá vida ao sujeito que cambaleante ali passou indiferente aos olhares de quem se cruzava. A certa altura as pegadas param, perde-se o rasto esfumaçado por entre o grito dos aflitos que ali se cruzou. Fito o círculo deixado sobre o tapete de pedra e a sombra de quem ali se sentou entoando cantigas para enganar a fome. Escuto a invisível melodia da indigência que dança aos meus ouvidos como uma valsa compulsiva tomando como acordes todas as outras sombras que ali ficaram. É um preludio da penúria de gentes, ás vezes, do bem mas que não tem morada certa. São as pegadas da degradação que teimamos em não ver e da fome que não conseguimos sentir. Sãs as marcas deixadas pela solidão de alguém que já viveu, em tempos, num jardim repleto de sorrisos. São as pegadas que a vida não apaga, por muitas voltas que a vida dê.
Sob as pedras das calçadas jazem pegadas falecidas de gente que ali chorou, sofreu e viveu...



Maria Escritos

28/10/09

A cigarra e a formiga



Diz uma história antiga
Que uma cigarra cantava
Cri, cri, cri, fazia ela
E toda a noite assim ficava

Uma formiga a escutou
E com ela quis ir ter
Porque se a cigarra assim cantava
Alguma coisa devia querer

Meteu pés ao caminho
Por entre ervas e florinhas
E quando ao pé da cigarra chegou
Ficaram as duas caladinhas

Olharam-se bem de frente
Mirando-se, admiradas
Até que a cigarra perguntou
- Que te traz estas bandas?

A formiga respondeu:
- Foi o teu belo cantar
Que para aqui me atraiu
E fico contente por te encontrar

E diz-me :
Porque cantas toda a noite
Repetindo a mesma canção?
- É porque me sinto sozinha
E cantar afasta a solidão.

Não fiques assim, disse-lhe a formiga
Pois teu canto me enfeitiçou
Minhas pernas a ti me trouxeram
E aqui minha amizade te dou

Então deram um abraço apertado
E riram muito e baixinho
Agora cantam as duas
Toda a noite no mesmo buraquinho

E assim surgiu a historia
Da cigarra e da formiga
Que se encontram para cantar
Todos os dias á noitinha



Maria Escritos

Momento



Um olhar perdido no tempo
Suspenso no ar por um momento
Vaza a razão num segundo
Faz do vazio, um mundo

A macieza do ponto infinito
Solta a mente, liberta um grito
Amansa as correntes do pesar
Para que se possa enxergar


Maria Escritos

26/10/09

Poesia do amanhecer




Abrir os olhos
Num novo idioma
Resvalando com ternura
Para um novo aroma
Suave e delicado
Como um intenso sonhar
Sentir o corpo
Que quer amar
Olhar outra vez
E ver os olhos chorar
Gotas de orvalho
Para te bem-fadar.


Maria Escritos

25/10/09

Seres de sonhos


Na caminhada da vida
Haja audácia de sonhar
Perseverança em vencer
E não desistir de lutar

Que impere sempre
Vontade de agarrar as estrelas
Coragem de beber das nuvens
E o sol a brilhar nas janelas

Hajam seres de sonhos
Soprando hinos d’ alegria
Embalando consigo
Raios de sol a cada dia

Venham fadas e duendes
À minha boca ofertar
Pedacinhos de magia
E promessas de encantar



Maria Escritos

24/10/09

Anima mea




Eu sou a Senhora de todas as marés
Sou o Sol que te toca
Sou a chuva que te fustiga
Sou a brisa que roça de leve na tua face
Sou o vento que atiça as marés
Sou o espectro que te faz sorrir e que te faz chorar
Sou quem te faz sentir e quem te faz Amar
Sou o reflexo do que não vês mas que sempre existiu dentro de ti
Sou quem permanece quando tudo se vai

Eu sou a essência da vida que move a tua matéria
Sou aquela que não conhece o tempo mas que se move em todos os tempos
Eu sou
Simplesmente Anima



Maria Escritos

Querido diário




Hoje fui uma boa menina. Logo pela manhã levantei-me da cama sem preguiça e num piscar de olhos já estava vestida e cheirosa. Hoje surpreendi-me ao colocar uma fita no meu cabelo a condizer com o vestido. Não sei porquê, acordei alegre e com vontade de saltar, saltar, saltar até não poder mais.
Durante o dia, escutei a minha mamã dizer que no domingo vamos ter visitas. Mas que eu me lembre, não é o aniversário de ninguém cá de casa…
Enquanto a mamã andou a arrumar a casa, eu brinquei com as minhas bonecas e procurei não a atrapalhar. Já sabes como ela se zanga quando eu procuro a sua companhia para tomar chá connosco. Só de pensar parece que escuto o grito da sua voz: SAI-ME DA FRENTE!
Às vezes penso que a minha mãe não é esta. E então imagino que me trocaram no hospital quando eu nasci e é por isso que a mamã se zanga comigo, por saber que fui trocada com a sua bebé. De certo que tem saudades da sua filhinha. Mas eu também queria a minha mamã …
Sabes diário se não fosses tu e as minhas bonecas, não tinha com quem conversar nem brincar. E já que ainda hoje é terça-feira tenho de aproveitar para pular e correr o mais que puder, pois no domingo, os meus pais não me vão deixar fazer nada. Tenho de ficar quieta e calada e dizer “sim senhora” a toda a gente.
Espera, será que já estamos na Páscoa? Se assim for, querido Diário, podes pedir ao Coelhinho da Páscoa que me deixe um ovo de chocolate escondido? É que ele também nunca se lembrou de mim.
Agora vou nanar antes que a mamã se zangue outra vez.

Ah. Já me esquecia. Adorei o barulho dos passarinhos que me acordaram hoje de manhã.
Obrigada querido diário.
Até amanhã.



Maria Escritos

23/10/09

Sem sombra e sem luz



É-me impossível viver na sombra da dor
de um amor que se ama mas não se acerta.
É torturante viver afastada das tuas carícias
e da ternura que eu quis ver em ti.

Não consigo viver na dor,
porque na dor não há vida.
Não consigo viver no amor,
porque o amor não me deixou viver.
Nada fluiu, nada aconteceu, nada se edificou.
Criaram-se portas, puseram-se grilhões,
edificaram-se muralhas em volta dum sentimento nobre,
em vez de se depositarem
as sementes da esperança
num futuro certo.

Criaram-se dúvidas,
abriram-se as janelas da desconfiança mútua
no lugar de se solidificarem os laços da união.
Como esperas que siga vivendo,
quando o meu mundo, os meus sonhos,
a minha alma, a minha vida,
a luz do meu caminho, o meu porto seguro,
tudo em mim se foi contigo.

Esconjurado seja o dia
em que minha boca te alvejou
com palavras rudes,
pois o teu silêncio e a tua indiferença
marcaram-me e atingiram-me mil vezes mais
do que toda a raiva que me tivesses lançado.

Não consigo viver na sombra, nem sei viver na tua luz.


Maria Escritos

Sonho meu



A forma como aparecias atrás de mim e me envolvias num abraço, enquanto me beijavas o pescoço sempre despertou em mim uma sensação indescritível. Ainda hoje fecho os olhos e sinto o teu corpo colado ao meu. Experimento o calor que emanas e noto o prazer que te dá a minha forma de te acolher. Imagino que te recebo num abraço apaixonado, todos os dias, ate ao fim dos nossos dias. E neste sonho quero viver para sempre porque só assim sei que realmente estou viva. Não quero ser acordada deste sonho porque neste mundo as cores brilham mais, e o arco-íris está sempre presente. Juntos passeamos com os nossos filhos, por um campo coberto de mil flores de todas as cores. O sol brilha no alto do seu esplendor e o céu é sempre azul. A nossa música paira no ar. Temos como vizinhos as nuvens e uma suave brisa que teima em brincar com o cabelo dos meninos. À noite temos as nossas estrelas, que nos aconchegam para dormirmos.

Maria Escritos - 2005

22/10/09

Dias de tempestade




O dia amanheceu cheio de chuva que batia nas janelas furiosamente. Preguiçosamente saí da cama e fui abrir as persianas vislumbrando a tempestade que lá fora se abatia, dando um olhar desolado a este amanhecer.

Enquanto afastava os lençóis do meu leito de sonhos, senti-me como o vento que lá fora uivava com toda a sua força e arrasava tudo na sua passagem. Lembrei-me de ti e de toda a tua ausência ao longo destes anos de lamúria. A revolta e a dor apoderam-se de mim. Como pudeste ser capaz de me deixar? Como pudeste abandonar-me a esta dor que me devora e me consome a alma? Como te atreveste a partir sem mim deixando aqui sozinha, sonhando com a ternura dos teus beijos, sofrendo pela ausência dos teus afagos.

Trago acorrentada no meu peito, a lembrança das noites ardentes de amor, quando me tomavas nos teus braços e me possuías com tal fervor, elevando-me a um mundo de sensações fabulosas. São impressões gravadas no meu ser que me levam a buscar-te em sonhos, todos os dias, em busca da paixão que germinou em mim. É a sede dos teus beijos e das mil carícias com que me tragavas e me fazias tua é o desejo ainda latente no meu corpo, ansiando que me arranques mais um gemido ou um suspiro de prazer.
Trago o coração desenfreado, buscando em sonhos o consolo para o ardor desta paixão que herdei de ti. Este fogo que me queima as veias, este amor que respira em mim.
Cheiro os lençóis onde dormi rebuscando na lembrança, o aroma do teu cheiro que tanta falta me faz.


Lá fora cai um dilúvio bestial, que me traz de volta á realidade e me obriga a recordar. Saio para a rua e deixo-me fustigar pela chuva que me bate desenfreada no rosto e escorre pelos contornos do meu corpo. Ao meu lado surgem raios vindos do céu e trovões ecoam no ar, como se fosse uma homenagem fúnebre.
Faz hoje cinco anos que me deixaste, e o tempo acompanha o meu viver fazendo jus ao meu pesar. O tempo hoje chora comigo a tua morte.


Maria Escritos

21/10/09

Era uma vez outra história




Era uma vez outra história
Passada como tantas outras
Cheia de mistérios e segredos
Narrada no meio das moitas

Era uma vez outra história
Vivida em tempo que não sei
Duma vida que esqueci
Doutras vidas que eu cruzei

Era uma vez outra história
Com o sol e o seu encanto
Quando a menina passa
Batendo seu salto alto

Era uma vez outra história
De cortar a respiração
Quando a alma adoece
E maltrata o coração

Era uma vez outra história
Da mais velha profissão
De vender o corpo
Em troca de um quinhão.


Maria Escritos

O meu amor




O meu amor
Tem um jeito maroto
De me amar e me beijar
Que me deixa louca
E arrepia a pele
Sempre que me beija na boca

O meu amor
Tem um jeito maroto
De me arrancar arrepios
Sem manhas ou rodeios
Quando me acaricia
E me beija os seios

O meu amor
Tem um jeito maroto
De me seduzir e fazer vibrar
Quando enrola suas pernas nas minhas
Acariciando meu corpo
Percorrendo minhas linhas

O meu amor
Tem um jeito só seu
De me fazer estremecer
Quando me prende no leito
Quando sorve meu peito
E me ama sem jeito


Maria Escritos

20/10/09

Louca paixão


Tua língua me devora
Num beijo divinal
Rodopiando humedecida
Buscando prazer carnal

Estremeço de prazer
Nesse teu beijo atrevido
Percorrendo o meu corpo
Gemido de mim sorvido

Desfaleço nos sentidos
Percorridos pela tua boca
Emanando pulsações
Fazendo de mim louca


Maria Escritos

Sei-te de cor


Sei de cor
Cada traço da tua pele
Cada sabor expelido
Nos espasmos enfurecidos
Das noites ardentes de amor
Sinto
A chama que irradia em ti
Quando encostas
Teu corpo no meu
E me acaricias lentamente
Grito
Gemidos loucos de prazer
Nessa dança compulsiva
Com que me possuis
E te deitas sobre mim
Abraço teu corpo
Absorvendo do suor escorrido
Na fúria do desejo
Saciado em catadupa
Entre jorros de prazer


Maria Escritos

19/10/09

Deitados ao luar


Deitados na areia
À luz do luar
Dois corpos se amaram
Salgados pelo mar

Entre beijos e carícias
Abraçados pelo mar
Toda a noite ali ficaram
Com vontade de se amar

A vontade era louca
O desejo uma constante
Pulsando com exultação
Numa explosão vibrante

O mar os acolheu
Entre gemidos e sussurros
Num chocar de corpos
Suados, exaustos e desnudos

Maria Escritos

Tu... que não sabes quem és!


Tu, que te dizes meu amigo
Mas que me abandonas no teu silêncio
Cheio de enigmas inimagináveis
Tu, que carregas a dúvida incerta
Acusando veramente
A casualidade do acaso
Em palavras sem escrúpulos
Não te enganes a ti mesmo
Com certas insinuações
Não escutadas pelo teu Ser
Não te iludas com lances
Cortados às escondidas
Não retalhes nem trucides
Quem de ti fez o seu ombro
Não traias a Amizade
Com enganadoras atitudes
Forjadas por mão alheia
Tu, que não sabes quem és
Levanta-te
Acha-te a ti mesmo
Nos confins da Glória
(Marca com longas linhas
A corrente do Bem)


Maria Escritos

18/10/09

Alma do sentir



Quando eu não mais puder sonhar
Nem dar asas ao pensamento,
Terás feito de mim
Tua prisioneira,
Ou talvez
Tu, Morte
Me abraces, simplesmente
Com o teu toque regelado
E me conserves assim
Para sempre.
Mas até lá,
Ainda posso viver de sonhos
amordaçados na garganta,
E, mesmo com as correntes
Com que me prendes
E tentas chamar a ti,
Ainda consigo voar...

17/10/09

Se eu hoje disser...


Se eu hoje disser
Que tenho vontade de chorar
Deixa-me verter estas lágrimas
Salgadas como o mar
Que me escorrem pela face
Luzindo ao luar
Que nascem nos meus olhos
E morrem no meu beijar


Maria Escritos

16/10/09

Esta noite, aborvo-me em mim


Esta noite eu não vou deixar morrer em mim a saudade cravada nos dias sorridentes dum passado, nem vou permitir que a distância do diálogo e a confusão da solidão apague o sorriso que há em mim. Esta noite, desabarei palavras sobre o papel para não matar a lembrança das alegrias sonhadas num eco surdo atordoante. E sorrindo ou chorando, escreverei a nostalgia dos sonhos vividos, com a alma, na esperança da sorte se abater sobre mim. Imprimirei o júbilo com que os nossos caminhos se cruzaram, esquecerei as mágoas das feridas abertas e esculpidas em mim. Procurarei a senda da aventura em cada linha escrita, descrita com as talhas da melancolia no dia-a-dia passado. Esta noite, não vou esquecer que, sôfrega, sorvo do amor, nem a feição onde talhei este amor. Não voltarei as costas á fonte que me dá vida e me sustem erguida. Esta noite, construirei um sonho, baseado em palavras ansiosas por partirem e pela noite dentro me acharem. Devorarei cada detalhe do olhar dependurado na tristeza, olhando lá ao longe o vazio da ilusão criada. Esta noite, sentirei o fardo apetecível e voluptuoso do amor.
Esta noite não termina assim, porque eu preciso dizer que te amo, e gritar bem alto para todo o mundo ouvir com que traço se reveste o meu amor…

Esta noite … a minha narrativa começa assim! Esta noite, absorvo-me em mim



Pintura de MANU GRAÇA
Texto de Maria Escritos

12/10/09

Fragância de mim




Mal abri os olhos a música parou de tocar, o vento deixou de acariciar meu rosto e, os sonhos fecharam suas portas deixando-me cá fora sozinha. Deixem-me erguer montanhas, erigir muros e construir castelos.
Deixem-me escutar, o barulho dos passos, gravados ainda na lembrança, de todas as vezes que vieste, ou quando partiste desta ilusão. Quero fechar os olhos e sentir cá dentro todas as cores da alegria, e beber dos risos libertados naqueles dias em que apenas sonhava amar. Tapo os ouvidos para que o eco inebriante das vozes melosas da paixão, não fuja de mim.

Olho, para a recordação e sinto a leveza das aves voando alegremente ao som de uma valsa inaudível. Vejo com exactidão, cada detalhe da fragrância perfumada que fica espalhada sobre o leito onde descansas, encolhido, deitado a meu lado.

Abate-se sobre mim o peso das memórias, que uns dias me fazem leve e noutros me fazem cair tropeçando, desastrada, em todas as reflexões não vividas.
Podia ser uma fada ou uma princesa, podia ser uma dama e pertencer á nobreza. Podia enfeitar o cabelo com flores e dançar abertamente saltitando sobre as pedras dum riacho.
Podia inventar melodias graciosas e aprender a falar com os animais. Podia ser uma sereia, habitar nas profundezas do mar e nadar espontaneamente percorrendo os mistérios das correntes marítimas. Podia até, contar as estrelas-do-mar…
Mas todos os papéis me parecem difíceis e então escolho descer á terra e, ser apenas quem sou e viver assim embrenhada no meu ser.

Deixem-me ver o sol radioso que se abate sobre o perfume das rosas e, que embriaga as borboletas fazendo-as dançar soltas no ar. Deixem-me viver... deixem-me ser livre...deixem-me sonhar.
Porque tudo são apenas linhas de sonhos inventados na memória, meras fitas com que me amarro a um querer, luz dos olhos sem brilho que não ficam alegres jamais, porque o esplendor permanece apenas nas estrelas que acendem o céu… e o céu está tão longe…





Maria Escritos

07/10/09

Maternidade



Os sonhos que em mim pintei
Desbotados pela tristeza
Deixei-os soltos ao vento
E concentrei-me na certeza

De contos em mim talhados
Nas linhas das histórias entoadas
segregadas com ternura
em horas não realizadas

Carinho de mãe não sei
o que foi ter ou receber
Amor de mãe eu sei
que tenho muito para oferecer.


Foto e poema de Maria Escritos

Laços



Por vezes
É na dor que nos trespassa
E nos retalha em mil pedaços,
Que nos juntamos com o Amor.
Quando surgem novas cores
Adornando o teu sofrer,
E quando percebes
Que as tuas lágrimas
São perfumadas
E não caem mais sozinhas,
Saibas então
Que alguém te ampara
No seu Amor.

Quando sentires
O perfume adocicado
Ofertado por mão alheia
Que alisa a dor de mansinho
E te dá um novo horizonte
Num arco-íris de mil cores
Quando nos teus dias
Houver apenas sorrisos
Saibas então
Que estás perante
Aroma da Amizade
Que é esposa do Amor

Maria Escritos


Foto de Nuno Freire (TODOS OS DIREITOS RESERVADOS)
http://olhares.aeiou.pt/hands_on_approach_foto711447.html

03/10/09

Às vezes...Com Amor



Às vezes
È nos pequenos gestos
Que vemos grandes actos
De Amor
È no meio dum desespero
Que achamos o rumo
Desaparecido no tempo

Às vezes
É através de simples palavras
Que nos é dado o maior valor
Do Amor
É nos gestos mais banais
Que enxergamos significados
Grandiosos, repletos de luz

Às vezes
É no meio do silêncio
Que a vida se aproxima de nós
Com Amor
É no instante cravado de mansinho
Na memoria de um ser
Que se gera a conivência

Às vezes
É no tempo que se perde
O tempo de ter e dar
O Amor
È nos dias perdidos no tempo
Que se estupram os sentidos
E todas as grandezas que a vida nos dá

Às vezes
É sonhando acordados
Com o tempo cedido ao tempo
Do Amor
Que passamos a esconder
Os atalhos dos dias conturbados
Do vazio que mora em nós.

Às vezes
É tudo tão simples e tão óbvio
Mas preferimos complicar
O Amor
È tão simples viver e ser livre
Ser feliz e sermos leves
Com o tempo que a vida nos dá.

Às vezes
Há quem acorde e enxergue
Que tudo mora em nós.
Com Amor
E basta somente abrir o coração
E libertar o brilho
Que resplandece abafado

Às vezes...
Temos simplesmente
A certeza absoluta
No Amor
E que nada acontece por acaso
Em todo o tempo dum instante
Que a vida nos dá …
Com Amor!


Foto de Cristina Meneses Alves , do álbum "Macros" ( Todos os direitos reservados)

Poema de Maria escritos

02/10/09

Gotas aspergidas




Já não sei escrever poesia
Talhada em noites de lua cheia
Quando banhavas os meus sentidos
E os dispersavas na areia

Debaixo de olhares acesos
Ou das luzes que vêm do céu
Fico esculpindo carpidos
Ocultados por este meu véu

Deito gotas arroxeadas
Impregnadas de nostalgia
Aspergida nas montanhas
Onde viveu a alegria


Foto de Cristina Meneses Alves (todos os direitos reservados)
Poema de Maria Escritos

01/10/09

São três horas da manhã



São três horas da manhã. Estou ainda acordada. Espalhei o sono porque me deixei levar mais uma vez pelas minhas cogitações. Neste percurso recapitulo tudo para não esquecer nem um detalhe, nem sequer um pormenor. Não quero esquecer, não posso esquecer, não vou esquecer.

Sorrio ao recordar aquelas noites em que me pontapeavas o ventre enquanto ia murmurando palavras doces para te acarinhar. Passava a mão sobre a minha barriga e cantava-te canções de embalar. Sempre adormeci antes de ti, porque tu, meu anjo doce, sempre que me sentias deitada, manifestavas a tua vontade, com imensos pontapés. Como te mexias! E como sorrio ainda hoje ao recordar como me batias. Parecias furiosa por eu ter de dormir enquanto ainda querias brincadeira, e desafiavas-me com os teus movimentos. Mas derrotada pelo cansaço, deixava-me embalar pelos teus pontapés. Sinto saudades desses dias.

Rememoro os dias em que escolhia a roupa que vestirias quando viesses ao mundo e experimentava imaginar o teu futuro. Sempre que tentava adivinhar a tua carita, aparecias-me como um ser celestial de tez branca como a neve, levemente rosada nas faces, e uns olhitos brilhantes. A boca? Encarnada. Como um moranguinho maduro acabado de colher. Um bebé rechonchudo e lindo por demais.
Mesmo sem teres vindo a este mundo meu amor, já te amo e, tenho vontade de te mimar. Anseio pelo dia em que te vou ter nos meus braços, sentir o calor do teu frágil corpito, tal como agora sentes o meu, e pedir-te que me embales uma e outra vez com os teus pezitos a marcar presença na minha barriga.

Deitada na cama, a meu lado, dormes profundamente e ainda hoje, contigo a dormir, sinto o teu corpo que procura o meu. Passado este tempo todo atiras-me com uma perna ou um braço, uma e outra vez repetidamente, como para te certificares que estou mesmo ali do teu lado. Então suspiras e voltas para os teus sonhos, respirando tranquilidade e dormindo profundamente.

Procuro respirar a paz que provém de ti para guardar as minhas recordações numa caixinha, algures dentro de mim. Num piscar de olhos vejo a minha entrada urgente na sala de operações, no dia em que nasceste, meu tesouro. Fiquei com medo por ver chegada a hora, antecipada pela tua pressa em nascer. Sinto uma outra vez as lágrimas que brotam dos meus olhos e me rolam pela cara, desfazendo-se na maca que me transporta para um futuro incerto. Vens cedo minha princesa, espero-te mas ainda não é a hora. Seja o que Deus quiser.
Lavada em lágrimas dirijo as minhas preces à minha mãe do Céu – a minha única companhia dessa hora – e peço-lhe que cuide de ti caso eu não possa estar contigo. Elevo meu pensamento à Virgem Maria e entrego-te aos seus cuidados.

27 de Dezembro de 1998, 21.30h. Acordo ao som de palavras que dizem que tenho uma menina linda.
-Está na hora de acordar.
Apalpo o meu corpo para me certificar que não estou a sonhar. Então dou-me conta das dores horríveis que sinto. Acordei com a sensação de que tinha sido atropelada. O corpo afundado na maca mas a cabeça a flutuar. Peço para te ver mas não me deixam. Que estas bem mas foste para a neonatologia e estas dentro de uma incubadora.
-Amanha se puderes andar, já podes vê-la!

Foram momentos angustiantes meu amor. Mas tudo valeu a pena, e de bom grado voltava a passar pelo mesmo só para te ter.
Apago a luz e forço-me a dormir. Consinto que me assole mais um flash da memória e com prazer adormeço sorrindo, embalada por uma das tuas primeiras frases completas. A minha favorita:

- Amo-te muito mamã!