01/12/09

Instintos


Deixa-me sentir-te
No desnudar da madrugada
Com murmúrios em meu rosto
Por entre raios de sol
Roçando leve na minha pele

Deixa-me sentir-te
Num serpentear enfurecido
Das ondas desfalecendo à beira-mar
Entre pingos de espuma
Abraçados a meus pés

Deixa-me sentir-te
Nas gotas perfeitas de chuva
E no cheiro da terra acabada de regar
Desabrochando as pétalas
De sensíveis labirintos

Deixa-me sentir-te
Na magia que a noite conhece
Carregada de fascinantes instintos
Na voz turva e abafada
Do ofegar da respiração

Deixa-me sentir-te
Gravar meu corpo com suor teu
Semeando carícias em meu ventre
Como gotas de orvalho
Caindo no rosto pela manhã




Maria Escritos
© Todos os direitos reservados

28/11/09

Suspiro gotas


Suspiro gotas
Entre sedas e cetim
Num bailado de cadencias distantes
Dos desejos incontidos

Suspiro gotas
Entre o roçar da pele
Sob o incenso vaporoso
Da sedução do amor

Suspiro gotas
Na dança de corpos desnudados
Entre a chama sibilante
Do aroma que paira no ar

Arrepios saem
Num ápice entre gemidos
Da inconsistência bruta
Dessa ânsia que assenta em mim

Suspiro gotas
Gemidos saem
Estremecimentos expelidos
Numa dança sem fim


Maria Escritos
Todos os direitos reservados

27/11/09

Guardo


Guardo-te sobre os dedos
No parar do tempo
Na calma com que toco a pele hoje despida

Guardo-te no olhar
Como a luz das manhãs
E a força dos dias inventados por ti

Guardo-te no instante em que me calo
E não escuto o teu silêncio
Murmurado ao meu ouvido

Guardo-te nas rugas do nosso leito
Nas ondas sedentas
Das torrentes rubras de paixão

Guardo-te nos acordes sublimes
Das notas produzidas no corpo
E das suaves melodias geradas em mim

Guardo-te na saudade ressaltada
E no suspiro dos dias de repouso
Que acarinham o vazio deixado por ti

Guardo-te no travo da minha boca
Num sabor doce que me desperta
A vontade louca de te amar


Maria escritos
Todos os Direitos Reservados

Toca-me


Toca-me!
Toca meu corpo,
Instrumento que espera
Pelo suave toque dos teus acordes

Toca-me!
Toca meu corpo,
Violino teu no timbre exacto
Suspirando notas em perfeita harmonia

Toca-me!
Toca meu corpo,
Conduz teu corpo sobre o meu
Que vibra à espera do primeiro tom

Toca-me!
Toca meu corpo,
Arranca de mim as mais belas notas
Para entoar segregadas aos teus ouvidos

Toca-me!
Toca meu corpo,
E cala a minha boca com um beijo teu
Acolhe meu corpo que tua boca recebeu

Maria Escritos
Todos os Direitos Reservados

17/11/09

Sorriso



Quero um sorriso
Coberto de orvalho fresco da manhã
E um breve aroma adocicado saltando no ar

Quero um sorriso
Com olhar calado, admirando atentamente
A cumplicidade, muda, enfeitando as alvoradas

Quero um sorriso
Numa breve alegria suspirada ao ouvido
Como uma melodia versando no infinito

Quero um sorriso
Num esgar amplo e sincero
Assim sem mais nem porquê.

Quero um sorriso
Num rosto amigo, destemido e ousado
Que se invente com o meu


Maria Escritos

09/11/09

As minhas ultimas palavras

“Há um olhar suspenso na chama tremeluzente da escuridão do quarto, que trespassa o silêncio cerrado parado no ar. Voltam as lembranças dos problemas por resolver. E tantos que eles são. Sinto-me cansada e derrotada. A insatisfação ocupa agora a minha essência, que, pesadíssima luta para se arrastar e fugir. A minha cabeça anda ás voltas e o corpo batalha para se mater erguido. Custa-me raciocinar, todos os meus pensamentos se inclinam para o mesmo lado. Será talvez o fardo que agrilhoado a mim pende sempre para esse mesmo lado.
Eu quis ser livre, ser leve, quis ter um arco-íris presente e constante, mas as sombras teimam em tirar-me os sonhos que consigo construir. Deus deu-me um anjo, e nem a esse anjo eu consigo fazer feliz. Há um buraco negro esculpido no meu ser, uma mancha talhada com mestria pela mão de quem me deu a vida. Não aguento mais este peso que me sufoca, nem este ar que respiro e me queima as entranhas. Não aguento o bater deste coração que quase me perfura o peito, em constante sobressalto.
Não aguento ter de dizer “não” tantas vezes, nem consigo olhar nos olhos da minha filha e dizer que não lhe posso dar isto ou aquilo, por causa de outro alguém.
Estou cansada da família, estou cansada do trabalho, estou cansada da vida e estou farta de tudo. Já não consigo sofrer mais nem fazer sofrer por minha causa Já não posso com o mundo às costas. Sou um nada e um nada serei. Sou uma cobarde e uma cobarde serei. Sou uma fraca e uma fraca serei. Hoje já não sou nada, e tudo de nada serei.

Deixo algumas palavras escritas dirigidas a algumas pessoas:
À minha princesa, peço-lhe que me perdoe, mas eu não consigo olhar mais a carinha dela e ver as lágrimas a escorrer pela cara abaixo de todas as vezes que não consegui estar á altura das suas necessidades.
À minha mãe, agradeço por matar os filhos em vida.
Ao meu pai, peço-lhe que cuide da minha filha.
Ao meu amor, peço-lhe que acenda uma vela por mim que me ilumine o caminho do céu.

Faz-se luz nos mistérios que jazem latentes na força que se conserva escondida e albergada no meu Ser. Eu não já consigo andar aqui pois a luz enfraquece com o ataque das sombras que habitam em mim.


Paula Moreira / Maria Escritos

05/11/09

Ternura dos 70


Dispersa num olhar amadurecido
Vai contra o tempo que lhe escapa
Num sopro envelhecido
Manchando a cabeleira branca.

Escuta as vozes do vagar
Que ao ouvido, sussurrando baixinho
Relembram que no marchar
Fica muito de seu pelo caminho.

Venham alegrias e tristezas
Galardoadas com valentia
Não te ceifa a brancura das madeixas,
escuras, como foram um dia.

Envolves ainda num abraço
Com a audácia de antes
E repartes do teu regaço
Sorrisos estonteantes.


Maria Escritos